domingo, 24 de janeiro de 2010

Conto - Opção 4



Eu sei que esse titulo é ridiculo... não presto pra isso, mas adorei escrever esse conto e vou postar aqui...


- Anda. Vamos!
- Não. Ainda é sete da manhã, Beto.
- Ah. Qual é? Por favor. – ele insistia fazendo aquele olhar triste que eu tanto odiava. E por que eu odiava? Por que não era simplesmente qualquer olhar triste. Ele tinha olhos verdes e quando me olhava daquele jeito era como olhar dentro de uma piscina e não poder ver o fundo. Era apavorante. Quando ele fazia aquele olhar ninguém conseguia dizer “não” principalmente se esse alguém fosse eu. E o pior é que ele sabia disso. Era isso que me dava mais raiva, ele sabia tão bem que eu não resistiria àquele olhar que insistia em mostrá-lo toda vez que eu me negava a fazer o que ele me pedia.
- Tá vai, mas a gente volta logo. – respondi caindo mais uma vez em seu truque. É Andrea você é uma completa idiota.
Saímos da casa. Como eu imaginei o Sol brilhava fraco, uma fina camada de nevoa encobria a água do lago. Mas isso não impediu Beto de correr pelas tabuas do pequeno píer que havia sido construído por seu pai. Eu apenas o segui, devagar, pesando no risco que estávamos correndo de pegar uma pneumonia, uma vez que o ar estava tão frio que quase saia fumaça de nossas bocas enquanto respirávamos. Essa sou eu sempre pesando no que pode acontecer, mas, qual é quem não pensa nos riscos?
Um forte vendo frio soprou no exato momento em que eu cheguei ao final do píer eriçando todos os pelos do meu corpo. Cruzei os braços e as lembranças de quando éramos crianças invadiram minha mente. Lá estava eu, parada no mesmo lugar, com os braços cruzados da mesma maneira provavelmente pesando na pneumonia que podíamos pegar, olhando um garoto que mexia na água do lago exatamente como naquele momento. A única diferença era que eu tinha dez anos e meu pai estava ao meu lado. Agora com dezoito tudo parecia exatamente como antes a não ser é claro que não estávamos passando o fim de semana em família. Éramos apenas eu e o Beto. Eu e meu mais antigo e melhor amigo.
- Ei, vamos nadar. – ele disse interrompendo minhas lembranças e me fazendo voltar à realidade. Eu não sei o que perdi, mas quando acordei de meu transe temporário ele já havia tirado a camisa e estava prestes a pular naquela água gelada.
- Você ta louco. Tem noção do que pode acontecer se pular nessa água? Você pode ter u...
- Meu Deus Andrea você nunca faz nada sem pensar?! – ele disse me interrompendo e depois pulou. Fazendo com que a água respingasse em mim. Talvez ele pensasse que desse jeito me faria pular também, mas nunca que eu iria fazer isso. Nunca mesmo.
“Três segundos, quatro segundos, cinco, seis, sete, oito, nove, dez segundos. E nada do Beto voltar. Ele pulou, mas ainda não tinha voltado à superfície. Se ele passar trinta segundos eu pulo. Mas e se eu também não conseguir voltar. Quinze. Eu posso pedir ajuda. Bela idéia não vai encontrar ninguém em um raio de cinqüenta metros. Vinte. Droga. Vinte e cinco.”
Eu já estava tirando os sapatos quando ele voltou, uma onda súbita de alivio percorreu meu corpo.
- Andrea!Me... aju..da! – ele estava se afogando ou tentando me convencer a pular? – Minha... per..na! – droga eles estava mesmo se afogando. A água fria provavelmente tinha causado cãibra. E agora o que eu fazia? Pulava ou corria atrás de ajuda? – Andreeeeea! – Pulava.
Então eu comecei a tirar a minha roupa. Não me leve a mal, não é que eu quisesse entrar num lago de calçinha e sutiã, mas eu sabia que muitas pessoas morreram afogadas por que causa do peso das roupas molhadas. E, além disso, quais escolhas eu tinha? Entrar completamente vestida e arriscar a minha vida e a vida do Beto ou entrar parcialmente vestida e ter uma chance de salvar nossas vidas. Se eu tinha realmente tinha que fazer isso melhor fazer bem feito. Terminei de tirar minhas roupas e pulei no lago. A água estava realmente gelada, mas eu agüentei, consegui chegar até o Beto e levá-lo para a margem não sei se totalmente em segurança, mas consegui.
- Beto. Beto. – chamei dando tapinhas em seu rosto. Aquela cena provavelmente seria estranha pra quem passasse por ali e me visse só de calcinha e sutiã dando tapas no rosto de um cara desacordado. Pensando bem era realmente engraçado se você tirasse a parte em que nós quase nos afogamos. Esquecendo meus devaneios e voltando ao assunto. Lá estava eu de calcinha e sutiã toda molhada, por cima de um cara desacordado, espera, eu já disse que estava desesperada, pois eu estava.
Sem saber o que fazer comecei a tentar massagem cardíaca pelo menos era isso que eles faziam em filmes, mas não tava adiantando. Eu teria que partir pra respiração boca a boca. Meu Deus e agora. Não que fosse ser tão difícil beijar o Beto ele era bem bonito. Tinha aqueles olhos verdes o cabelo loiro e todo aquele corpo de atleta. Mas, fala serio, seria bem mais fácil beijá-lo se sua vida não dependesse disso. Mas fazer o que né, deixá-lo morrer é que eu não iria. Comecei a me aproximar lentamente, pensando no que faria quando ele acordasse. Meus cabelos molhados já estavam encostando-se a seu rosto quando ele acordou.
- Tô no céu e ninguém me disse. – ele disse segurando meus ombros para que eu não saísse do lugar. Depois passou os olhos rapidamente por meu corpo parando por dois segundos em meus seios, é eu percebi isso, e depois completou com sorriso maroto no rosto. – Você ta ótima!
- A Meu Deus Beto, quase tive um ataque! – exclamei tirando meus olhos de seu corpo. Senti meu rosto enrubescer, e me sentei rapidamente abraçando os joelhos. É aquela situação tinha sido esquisita eu ali toda molhada por cima dele, nossos lábios a centímetros e ah eu estava parcialmente vestida, ou seja, de calcinha e sutiã. Estávamos tão perto que eu podia ouvir nossos corações batendo no mesmo ritmo acelerado o que era bom já que há dois minutos eu tinha considerado a hipótese de ele estar morto e tal. É pesando bem aquela era uma situação bem constrangedora.
- Isso seria triste e tudo mais. – ele disse brincando com a situação. É você entendeu bem BRINCANDO. Pode um negocio desse. Ele quase tinha morrido, quase tinha me levado junto e agora estava brincando com isso. – Eu sei o que vem agora “ Nós estaríamos perfeitamente a salvo se você tivesse me escutado. Eu te avisei. Blá, blá, blá” – ele me interrompeu quando tentei repreende-lo sobre o que havia feito com um imitação perfeita da minha voz.
- Ainda bem que você sabe. – rebati com a respiração descontrolada.
- E aí como foi?
- Como foi o que?
- Sabe agir sem pensar.
- Se ta achando que só por que você estava se afogando eu iria agir sem pesar. Equivocou-se. – revidei. Enquanto o observava se sentar.
- Você pensou duas vezes antes de pular e me salvar? Cara, você é surpreendente. – ele disse sorrindo.
- Várias vezes. Pode ter certeza disso. – falei ignorando sua surpresa.
- Então quais eram as opções? – ele disse arremessando o corpo para trás e deitando-se na areia como sempre fazia na minha cama e como sempre soube que eu odiava. – Vejamos. Opção um: você podia pular e me salvar. Mas claro que você não faria uma coisa impensada. Opção dois: você podia se virar e me deixar morrer assim se livraria de todos os problemas em que te meto. Viu, eu tenho razão. – ele completou quando viu um leve sorriso em meu rosto. É eu tava mesmo sorrindo, mas não por que tivesse ralamente pensado naquilo e sim pelo modo como ele tinha viajado na maionese – e opção três: se você não fizesse nada ficaria com a consciência pesada ou poderia ser processada por negligencia. Bem a sua cara. – eu não tava acreditando ele sinceramente acreditava que eu só tinha pulado naquele lago gelado por que se não fizesse ficaria com a “consciência pesada” ou poderia ser “processada”? Fala Sério. – acho que a gente pode dispensar as opções um e três. Você com certeza deve ter pensado mais seriamente na dois, mas você não foi embora o que é esquisito se levarmos em conta que...
O que eu fiz a seguir foi umas das coisas mais impensadas que poderia fazer. Eu só queria que ele parasse de falar aquelas besteiras sobre o que eu estaria considerando quando pulei no lago e tal. Aí eu simplesmente o beijei. Não que não tenha sido bom, mas foi meio que no calor do momento. Em um segundo eu estava tentado fazê-lo calar a boca em outro nossos lábios estavam juntos e quando eu percebi seus braços já estavam em volta do meu corpo me puxando para perto. Bem perto, tão perto que agora não podia apenas ouvir seu coração também podia senti-lo.
- Por que? – ele perguntou quando eu o empurrei pra mais longe separando nossos corpos.
- Talvez você queira saber. Foi totalmente impensável. – disse levantando-me e indo em direção a casa.
- Andrea. Existe uma quarta opção. – ele disse quando me alcançou nas escadas que levariam a porta.
- Não. – respondi mesmo sabendo que aquela não era um pergunta. – Só duas. Pular ou chamar ajuda.
- Sim, existe. Eu não considerei antes por que... Por que achava impossível. – ele disse olhando diretamente em meus olhos coisa que quase nunca fazia. O olhar triste voltou a seus olhos e eu não entendi por que. Ele não estava me pedindo nada. Ai eu percebi por que nunca consegui ver o fundo da piscina. Nunca vi por que nunca olhei realmente para ela, na verdade nunca percebi que ele toda vez que fazia aquele olhar ele não estava me pedindo nada. Só estava... me olhando. Ai eu também percebi que não eram olhos tristes e sim olhos apaixonados. E depois eu cai na real e finalmente entendi por que não conseguia resistir àquele olhar. Eu também estava apaixonada por ele.
- Eu... eu...
- Você pulou por que me ama. – ele sussurrou em meu ouvido. E depois me beijou. Passando os braços em volta de meu corpo e me levando novamente para perto. E eu? Bom. O que é que eu podia fazer? Mentir e dizer que não o amava ou ficar ali com ele aproveitando o momento?
- Será que eu já posso me vestir. – disse quando nossos corpos finalmente se afastaram.
- Não assim tá bom. – disse depois de me olhar por um momento.
E eu? Bom. Talvez aquele fosse o momento de começar a fazer coisas impensáveis.

Fim.
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