Conto - Mais do que um Jogo.

E lá estava eu, novamente, sentada na arquibancada. Assistindo ao maior jogo que a Academia Michel Mark poderia ter. Minhas mãos suavam e minhas pernas tremiam era obvia a minha vontade de jogar.
Logo nesse ano que a participação de garotas tinha sido permitida o ano em que eu finalmente poderia jogar o ano em que a nossa escola estava mais bem preparada o ano que ela poderia ganhar e que eu poderia participar disso tudo, logo nesse ano eu tinha que brigar com ele. Miguel, o capitão da equipe de futebol, meu melhor amigo e por quem eu sou apaixonada desde... Hum... desde o dia em que ele pegou a minha bola e me chamou pra jogar, sério naquele momento eu pensei “ que cara doido, chamando uma garota pra jogar. Vai ser zoado pelo resto do ano” mas aí a gente começou a jogar, eu era a goleira sempre fui a goleira, e bom nossa amizade decolou. Começamos a fazer quase tudo juntos. Jogávamos bola todas as tardes e fazíamos nossos deveres de casas á noite - juntos como sempre, Mas esse ano alguma coisa mudou. Não nos víamos mais, ao não ser na sala é claro, não jogávamos mais bola e ele não ia mais à minha casa pedir ajuda no dever de matemática.
Apesar de estranhar não achava essa situação ruim. A verdade era que precisávamos de tempo para nós mesmos, afinal eu sou uma garota e ele um garoto. Mas....mas.... Naquele dia em que ele pareceu de mão dadas com Aquela garota, a garota que não tinha na a ver com ele a garota patricinha e insolente a garota que me odiava com todas as forças e que eu odiava com mais forças ainda, não agüentei e explodi. Lembro-me como se ainda fosse hoje o pátio da escola lotado, todos me olhando e eu histérica gritando pra quem quisesse ouvir “ O que você ta fazendo com ELA?! Ficou maluco, ou foi a maconha de hoje cedo!” nesse momento as pessoas que voltaram sua atenção para nós soltaram vaias e mais vaias. Miguel me fuzilou com os olhos e por um momento eu desejei não conhecê-lo tão bem, e não saber exatamente o que aquele olhar significava.
Fiquei sabendo por um de seus amigos que esse ano o campeonato seria misto. Fiquei animada, não vou negar, mas também não sabia como agir na frente dele novamente. É. As coisas estavam esquisitas e não de um jeito esquisito bom, mas de um jeito esquisito totalmente insuportável. Ele não me olhava mais, passava longe de mim durante o intervalo, preferia tirar zero na prova de matemática a me pedir ajuda e pra completar não desgrudava Daquela garota.
Quando ele veio falar comigo naquela manhã nublada um chama acendeu- se em meio peito, será que ele queria fazer as pazes? Não, não queria ele só queria que eu entrasse no time. Sabia que eu, como goleira, era melhor que qualquer garoto.
- Hum... Dani, você vai participar do torneio. – ele afirmou, mas eu entendi como um pergunta.
- Não. – respondi imediatamente, apesar de ter tomado minha decisão no dia anterior estava bem segura de mim.
- Não estou perguntando. Estou lhe informando que você está no time. Os treinos começam hoje ás três. Ah... pegue. – ele jogou um pequeno pacote para mim – ai estão seu uniforme e sua ficha de inscrição, pode precisar dela. – ele completou olhando sério para mim. Como ele podia ter feito aquilo como podia ter feito a minha inscrição sem a minha autorização e sem a autorização dos meus pais, ah não, droga!Tinha esquecido como ele podia falsificar perfeitamente a assinatura do meu pai. Estava perdida, agora teria que encará-lo todos os dias das três a cinco. Droga! Droga!Droga!
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Os treinos até que foram tranqüilos no começo não nos falávamos, mas também não brigávamos o que era bom. As coisas pareciam estar voltando ao seu normal, aos poucos começamos a nos falar, e a jogar bola até ajuda ele me pediu e eu não o via mais com Aquela garota os treinos pareciam estar ocupando todo o seu tempo que antes era livre.
O campeonato finalmente começou, ganhamos o primeiro jogo. O treinador não me colocou, segundo ele não fui necessária. Afinal eu era a “arma secreta” e ele queria me preservar para as finais. O segundo jogo deveria ser bem tranqüilo, mas houve um problema com o goleiro titular e eu tive que entrar. Foi simplesmente maravilhoso a sensação de cada defesa era...era...era...foi fantástico vencemos de 4 a 1. Quando sai do vestiário feminino meu primo me esperava o primo que eu não via há anos o primo que me ensinou a jogar o MEU primo. Pulei em seu pescoço e dei-lhe um abraço ele retribuiu me tirando do chão e me rodando.
- Foram defesas incríveis Dani, não lembrava de você tão boa – ele disse com um imenso sorriso. Não que eu não soubesse que era boa - não que eu seja convencida, mas conheço minha capacidade - mas ouvir aquilo dele o meu praticamente-ídolo me fez corar e me sentir bem.
- Dani. Vamos? – a voz de Miguel soou pesadamente atrás de mim era como se ele... Estivesse me repreendendo por está ali, abraçada com o Rogério.
- Pode ir. Eu vou com o Rogério. – disse sorrindo, talvez eu estivesse enganada sobre o tom de sua voz.
- Eu não vou te deixar aqui com esse - ele apontou para Rogério – garoto.
Rogério tentou me defender, mas fiz que não com a mão. Podia muito bem resolver aquilo só.
- E por que não?! Você não é meu pai! Não manda em mim. – gritei não muito alto.
- É, mas eu sou seu... – ele parou subitamente, o que isso queria dizer?
- Meu?... – disse tentando fazê-lo continuar.
- Seu... Melhor amigo – disse me deixando surpreendida, será que eu realmente esperava que ele dissesse “Seu namorado” aquilo soava tão perfeito.
- Ah... Incrível, realmente incrível AGORA eu sou sua melhor amiga, mas quando foi pra dá uns amassos na Bianca - a tal Garota - você não se lembrou disso.
- E o que é que tem a ver? – perguntou ele sinicamente.
- Ah... Miguel faz-me rir. Você sabe perfeitamente que aquela garota me odeia e eu a odeio. E, além disso, você ficou sem falar comigo por causa dela e continuaria se não fossem os treinos.
- Não. Eu fiquei sem falar com você por causa do “pití” que você deu no meu do pátio, e você também não falava comigo. – ele disse me deixando a cada palavra com mais raiva. Agora ele queria se fazer de coitadinho?
- Eu não falava com você por que você não falava comigo. – disse. As mãos tremendo a cada palavra, como ele podia ser tão infantil. Levantar uma questão dessas só por que eu estava abraçada com o meu primo.
- Isso não vem ao caso, o que realmente interessa é que eu não vou te deixar sair com esse cara.
– ele disse apontando para o Rogério.
- Não é da sua conta com quem eu saio ou não – disse. Em seguida me virei, segurei no braço de Rogério e nós saímos andando.
- Já... – escutei Miguel falar atrás de nós. – disse... – ele continuava, mas agora parecia está correndo – que você... – senti sua mão quente no meu braço – não vai com esse cara! – ele me puxou com força o que me fez ir para trás. Depois disso a próxima coisa que me lembro foi de ver o Rogério virar- se repentinamente, de sentir uma brisa quente passar por meu rosto e de ouvir o barulho alto dos dedos fechados com força de Rogério atingir o rosto de Miguel.
Depois do barulho de ossos se chocando vi Miguel ajoelhado no chão com a mão no rosto, o murro que acabara de receber parecia ter acalmado seus nervos. Sai com Rogério, às lagrimas desciam pelo meu rosto como as gotas de chuva escorrem pelo vidro das janelas: incansáveis e inesgotáveis.
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Não voltei mais aos treinos muito menos aos jogos. Apenas assisti a eles da arquibancada, sozinha. Aquela era a final contra a nossa maior inimiga a Academia Dário Marques ou DM. Sabia que ainda estava no time, não poderia mais sair depois do torneio iniciado. Aquele seria um jogo difícil e tinha certeza que se fosse, o treinador me deixaria jogar, mas não fui. Talvez o meu orgulho fosse maior ou talvez eu só quisesse ficar longe dele, por tudo que tinha acontecido e por tudo que poderia acontecer.
Eu estava sentada como tinha sido nas ultimas semanas, no mesmo local da mesma maneira. Minhas roupas estavam bem normais, quer dizer não tão normais. Estava com minha calça de goleiro a camiseta do time com o imenso 34 nas costas e uma camiseta azul celeste por cima. É eu tinha pensado em jogar hoje, mas desisti no meio do caminho. O meu time perdia pro um a zero e eu escutava a voz incansável do locutor dizendo “Parece que é o fim para a Academia Michel Mark. O grande problema deles está na defesa, todo o time está tento de recuar e fazer papel de zagueiro” ele tinha razão, claro que tinha Daniel, nosso goleiro titular, estava com a mão machucada e quem estava no gol era Leonardo o problema é que ele não tinha a mínima noção de espaço e todas as bolas que chegavam perto da grande área era uma ameaça.
A coisa se complicou na metade do segundo tempo quando tentando fazer uma defesa - que acabou sendo gol - Leonardo machucou a perna e teve que ser substituído, mas quem poderia substituí-lo a única opção era Michel um garotinho pequeno e indefeso que seria capaz de desviar da bola para ela não tocá-lo. Não agüentava mais eu tinha que fazer alguma coisa, mas o que? O que eu poderia fazer naquela situação? Bom, eu podia jogar. Não. Essa opção estava descartada. Michel entrou no jogo. Mesmo lento e incapaz ele era a única esperança do time. Como esperado, defendia praticamente de olhos fechados. Morria de medo da bola.
Eu não podia ficar parada. Definitivamente tinha que fazer alguma coisa. Não pensei duas vezes, pulei o alambrado da arquibancada o que surpreendeu a muitos e fui em direção a treinador que me recebeu com um imenso sorriso atrás de mim escutava a voz do locutor falar “ Mas o que está acontecendo? Alguém invadiu o campo e está falando com o treinador da Michel Mark , não espere é um jogador. Será que o treinador pretende colocá-lo no jogo agora?” ele disse enquanto eu falava com o treinador e tirava minha blusa azul celeste que escondia embaixo a camiseta verde oliva do time da academia Michel Mark.
O treinador havia me dito que a defesa teria que ser mudada e perguntou o que eu achava melhor de fazer disse á ele que jogasse com quatro atacantes e dois zagueiros e que no gol eu me virava. Ele fez isso logo depois de me substituir. Tirou os dois zagueiros e colocou mais dois atacantes. Quando entrei no campo a voz do locutor dizia “Substituição para MM. Parece que o goleiro número quatorze será substituído pelo número trinta e quatro... mas espere o trinta e quatro é uma garota. Onde esse treinador está com a cabeça colocar uma garota no gol.”
Fiquei com raiva, mas não com mais raiva do que eu fiquei do número vinte da DM, pois logo que eu entrei no campo ele deu uma gargalhada abafada como se dissesse “uma garota no gol, essa escola está mesmo acabada!” tive vontade de dá-lhe um murro na cara, mas sabia que de nada adiantaria e esperei para acertar as contas com ele no gol. Dito e feito, das dez bolas que ele chutou para o gol defendi as dez. Foram defesas incríveis o garoto era realmente bom, mas eu era melhor. Nosso time finalmente conseguiu empatar a partida, dois a dois, agora sim podíamos vencer.
Prorrogação. O jogo continuou empatado mesmo depois dos trinta minutos, agora era vida ou morte a partida seria definida nos pênaltis.
MM
Goleiro - EU
1º Miguel – GOL
2 º Jorge – GOL
3º Fábio – FORA
4º Ângelo – DEFENDIDA
5º Sérgio – GOL
DM
1º Numero vinte e três – GOL
2º Numero dezenove - DEFENDI
3º Numero dez – GOL
4º Numero sete – DEFENDI
5º Numero vinte – DEFENDI
É nós ganhamos foi uma partida emocionante. Quando defendi a ultima bola sai do campo em direção ao vestiário, apesar de ter “salvado” o jogo não estava para comemorações.
Enquanto caminhava pelo bem iluminado pátio da escola senti alguma coisa me tocar, me virei rapidamente com medo de ser alguma brincadeira de mau gosto dos estudantes da DM, mas era
Ele era o Miguel. Mal terminei de me virar e quando ia falar algo ele me beijou um beijo forte e
ao mesmo tempo carinhoso um beijo que eu esperava há muito tempo o beijo com o qual sempre sonhei o beijo perfeito.
Seu beijo era quente e sedutor o que fez eu me sentir... Completa. O jogo, a vitória o beijo tudo naquele dia estava sendo tão perfeito que eu cheguei a desconfiar que Deus estava aprontando alguma pra mim, mas parecia que não por que logo depois que nos separamos Miguel disse ainda com a testa encostada na minha e segurando meu rosto com suas mãos quentes e grandes.
- Eu te amo. Eu sempre te amei. Mas você parecia não perceber isso – como assim eu não percebia, ele que não percebia – por isso comecei a sair com a Bianca pra te fazer ciúmes.
- Hum... Acho que também te amo e era você que não percebia isso.
- Como assim eu não percebia? Por que acha que eu ia todos os dias na sua casa.
- Pra pedir ajuda no dever de matemática.
- Fala sério! Você já viu minhas notas de matemática?! Eu só ia por que queria te ver, por que achava que nós não passávamos tempo suficiente junto por que eu sentia saudades. – meu coração começou a bater mais e mais forte a cada palavra.
- E por que esse ano as coisas mudaram? – perguntei curiosa.
- Por que... – ele me beijou – eu descobri que... – mais um beijo – eu te amo. E também por que queria chamar sua atenção, você nunca reparava quando eu tentava demonstrar o meu amor.
- Você também não! – falei e em seguida o beijei, já estava me acostumando com aquela idéia de namorados. – E... hum... naquele dia depois do segundo jogo... bem o Rogério é meu primo.
- O que?! –ele falou engasgado - Então quer dizer que eu tive um crise de ciúmes com o seu primo, putz que ridículo.
- É muito ridículo mesmo até por que ele te deu um soco.
- É foi ridículo – falou ele rindo e passando a mão no local onde Rogério o havia acertado.
Saímos dali rindo, realmente estávamos felizes ganhamos o jogo e nossa amizade parecia ter dado um salto impressionante. Enfim tudo estava perfeito e eu esperava sinceramente que nada mudasse.
FIM.